Hermes Trismegistus, 367

A Rosa Cruz (ou Cruz Hermética)

Por João Pedro 26 de junho, 2017 0

Baseado no artigo de Catherine Beyer, de 08 de Fevereiro de 2017.
Tradução, adaptação e acréscimos por João Pedro Brindeiro F. Silva, 01 de Junho de 2017.

O Lamen Rosacruciano – ou Cruz Hermética – está associado a uma série de diferentes escolas de pensamento, incluindo a Golden Dawn, Thelema, a OTO e os próprios Rosacruzes. Cada grupo oferece interpretações diferentes do Símbolo. Isso não deve ser surpresa, pois os Símbolos Magikos, ocultos e esotéricos são frequentemente usados para comunicar ideias mais complexas do que é possível expressar na fala*.
Atualmente, muitos adeptos desta cruz tendem a associar seus elementos ao cristianismo, já que os sistemas magikos usados por essas pessoas geralmente sejam de origem judaico-cristã. A cruz, no entanto, tem outros significados aqui além de ter sido o instrumento da execução de Jesus. Apesar disso, a presença das letras INRI, que em uma das versões cristãs é uma abreviatura da frase latina “Iesvs Nazarens Rex Ivdaeorym“, significa “Jesus de Nazaré, rei dos judeus”; isso não escapa da interpretação cristã. De acordo com a Bíblia, esta frase foi inscrita numa placa e posta na cruz onde Jesus foi executado. Porém, para os Hermetistas, lê-se “Igne Natura Renovatur Integra“, que significa basicamente “A Natureza se Renova (ou Regenera) Integralmente pelo Fogo”. Para uma determinada linha de Alquimistas lê-se como “Ignie Nitrium Roris Inventur“, que significa “por meio do Fogo se descobre o Nitro do Rocio”. Além disso, a cruz é muitas vezes vista pelos ocultistas como um Símbolo de imortalidade da Alma, sacrifício e morte. Na visão cristã, através do sacrifício e da morte de Jesus na cruz, a humanidade tem uma chance na vida eterna com Deus.

A Rosa Cruz (ou Cruz Hermética)

A CRUZ
Os objetos em forma de cruz comumente usados no ocultismo também representam os quatro Elementos básicos da Alquimia. Cada braço é colorido para representar um elemento: amarelo é o Ar, azul é a Água, preto a Terra e vermelho o Fogo. Estas cores também fazem alusão às três Sephiroth (do hebraico “esferas”) do mundo da Criação (Beri’ah ou Briah – בריאה) referente ao Elemento Água e ao nível Emocional da Mente: Chesed como Júpiter (azul), Tiphereth como o Sol (amarelo) e Geburah como Marte (vermelho), citadas no Sêpher haYetzirah (O Livro da Formação),  e presentes no diagrama cabalístico conhecido como A Árvore da Vida. As cores amarelo escuro, oliva, castanho e preto na parte inferior da cruz representam a Sephirah (singular de “Sephiroth“) de Malkuth, o Reino, segundo a Kabbalah. O branco na parte superior do braço inferior representa o quinto Elemento: o Espírito, ou Éter Yesódico na linguagem cabalista. A cruz também, entre muitas outras coisas, pode representar a dualidade, duas forças indo em direções conflitantes ainda se unindo em um ponto central. A união da rosa e da cruz é também um símbolo de geração, a união das Energias masculinas e femininas**. Finalmente, as proporções da cruz são compostas por seis quadrados: um para cada braço, um extra para o braço inferior e o centro. Uma cruz de seis quadrados pode ser dobrada em um cubo.

A ROSA
A rosa tem três camadas de pétalas. O primeiro nível possui três pétalas com as letras hebraicas Aleph (o Sopro Divino), Mem (as Águas primordiais) e Shin (o Fogo da Criação). Representam os três Elementos Alquímicos básicos, Mercúrio (matéria volátil que expandiu o Universo com sua mobilidade; por conta desta mobilidade foi associado à Hermes, pois este poderia estar em todos os reinos, assim como o Mercúrio em tudo está; é a potência criadora do Enxofre; é a expansão), Enxofre (o Latim Sulfor Alquímico; Elemento Ígneo, o Fogo criador; a Alma Universal que deseja manifestar-se, mas precisa dos outros dois Elementos para tal; é a criação) e o Sal (fez a matéria primordial agregar-se; é o grande mantenedor da forma; o Sal, dissolvido no oceano, simboliza o homem que, mesmo num infinito oceano do Absoluto, pode ser isolado com sua individualidade; é a manutenção). Também são as três Forças da Trindade: Vontade, Sabedoria e Amor. O nível de sete pétalas, com sete letras hebraicas, representa os sete planetas do sistema Setenário: Resh como o Sol, Gimmel como a Lua, Beit [ou Veit] como Mercúrio, Daleth como Vênus, Pei [ou Fei] como Marte, Kaph como Júpiter e Tav como Saturno. As doze últimas representam as constelações do zodíaco: Hei como Áries, Vav como o Taurus, Zain é Gêmeos, Cheth é Câncer, Teth como Leão, Yod como Virgo, Lamed como Libra, Nun é Scorpio, Samech como Sagitarius, Ayin como Capricórnio, Tzaddik é Aquário e Qof como Peixes. Cada uma das vinte e duas pétalas tem uma das vinte e duas letras no alfabeto hebraico (o Aleph Beit): 3 Mães, 7 duplas e doze elementares. Também representa os vinte e dois caminhos na Árvore da Vida, 22 Arcanos Maiores do Tarot e etc. Dentro da rosa maior há uma cruz menor com uma outra rosa. Esta segunda rosa é representada com cinco pétalas. Cinco é o número dos sentidos físicos e também o número de extremidades do homem: dois braços, duas pernas e a cabeça. Assim, a rosa representa a humanidade e a existência física. Pode-se também dizer que esta rosa cruz menor é análoga à maior, fazendo referência ao Princípio Hermético de Correspondência***.

OS PENTAGRAMAS
Um pentagrama é exibido no final de cada braço da cruz. Cada um desses pentagramas tem símbolos dos cinco elementos: uma roda para o espírito, uma cabeça de pássaro para o Ar, o signo zodiacal do Leão para o Fogo, o signo zodiacal do Touro para a Terra, e o signo zodiacal de Aquário para a Água. Eles estão dispostos de modo que ao traçar o pentagrama você pode progredir do mais físico para o mais espiritual: Terra, Ar, Água, Fogo e Quintessência – ou Espírito, seguindo a mesma sequência dos mundos cabalísticos da Árvore da Vida explanados também no Sêpher haYetzirah: o Mundo da Ação Olam Assyah (עולם עשיה), o Mundo da Formação Olam Yetzirah (עולם יצירה), o Mundo da Criação Olam Beriah, e o Mundo das Emanações e Causas: Olam Atziluth (עולם אצילות). As cores dos Pentagramas são referentes às três Sephiroth de Olam Yetzirah referente ao Elemento Ar e à Mente Racional: verde para Netzach e Vênus, laranja para Hod e Mercúrio, e Lilás para Yesod e Lua.

OS TRÊS SÍMBOLOS NO FINAL DE CADA BRAÇO
Os três símbolos repetidos no final dos quatro braços novamente representam o Sal, Mercúrio e Enxofre, que, como citado enteriormente, são os três Elementos Alquímicos básicos dos quais derivam todas as outras substâncias. Os três símbolos são repetidos em cada um dos quatro braços da cruz, numerando um total de doze. Doze é o número do zodíaco, composto por doze símbolos que circundam os céus ao longo do ano. Para entender as variações de posições destes elementos recomendo a leitura de receitas Alquímicas e literaturas confiáveis, como O Magnum Opus ou Corpus Hermeticum (A Gnosis Egípcia, coleção de vários tomos).

O HEXAGRAMA
Os hexagramas geralmente representam a união dos opostos. É composto por dois triângulos idênticos, um apontando para cima e um apontando para baixo. O triângulo ascendente pode representar ascensão Espiritual, enquanto o triângulo descendente pode representar o Espírito Divino que desce ao domínio físico de Malkuth. Podemos fazer inúmeras leituras deste Símbolo, incluindo praticamente todos os sete Princípios Herméticos.

OS SÍMBOLOS AO REDOR E DENTRO DO HEXAGRAMA
Os símbolos dentro e ao redor do hexagrama representam os sete planetas clássicos previamente citados neste artigo. O símbolo do Sol está ao centro. Sem o Sol, nosso planeta não teria vida. Também está comumente ligado à Luz Divina e às propriedades de purificação do Fogo, e por vezes é considerado a manifestação visual da vontade de Deus no Universo. No exterior dos hexagramas estão os símbolos para Saturno, Júpiter, Vênus, Lua, Mercúrio e Marte (no sentido horário a partir do ápice). O pensamento oculto ocidental geralmente considera os planetas nas órbitas mais distantes da Terra os mais sutis, porque eles são os mais distantes da “fisicalidade” da Terra. Assim, os três primeiros planetas são Saturno, Júpiter e Marte, enquanto os três inferiores são Mercúrio, Vênus e a Lua. Um reforço para este argumento são os quadrados magikos planetários****.

OS RAIOS BRANCOS POR DETRÁS DA CRUZ
Os quatro raios longos que se estendem por trás da cruz simbolizam os raios da Luz Divina; estes com as letras INRI, citadas anteriormente. As letras dos raios menores representam as primeiras letras dos nomes ressonantes usados pelos egípcios nas suas antigas Escolas de Mistérios. A palavra LVX, em latim, é Luz, utilizada como uma fórmula no Hermetismo em Rituais importantíssimos como o Ritual LVX descrito em obras da Golden Dawn. Cada uma das letras está relacionada a um sinal corporal e um Neteru (manifestação, arquétipo) egípcio: “L”, Isis, a lua, a poderosa mãe enlutada, “V” para Apophis, a serpente do Caos e “X” para Osísis, ressuscitado em Tipheret. Suas iniciais formam o mantra IAO, entoado em alguns Rituais de purificações e/ou evocações. Do hebraico, Yod para a primeira letra de Ísis, que ao mesmo tempo representa o signo de Virgo; Nun, a letra “N”, representando tanto a serpente quanto o signo de Escorpio, Resh, é “R”, representando Osíris e o Sol; e o retorno ao ponto luminoso de origem, no círculo do Zodíaco, daí “INRI”.

* Leia artigo O Poder dos Símbolos;
** Vide Princípio Hermético do Gênero;
*** “O que está embaixo é como o que está em cima, o que está em cima é como o que está embaixo…” – O Caibalion;
**** Recomendo “The Complete Magic System of The Order of The Golden Dawn” – REGARDIE, Israel. “Três Livros de Filosofia Oculta” – AGRIPPA, Henrique Cornélio.


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